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Uma ferida narcísica dos profissionais de saúde

Publicado por zanotta em Abril 26, 2008

Na França temos um termo, l’acha mement rhérapeutique, que é a procura da manutenção da vida de uma pessoa por todos os meios terapêuticos possíveis, estando essa pessoa em estado desesperador. Poderíamos traduzir em português por “zelo terapêutico”. Neste contexto, o zelo terapêutico, no momento da morte, é perfeitamente compreensível. É preciso fazer tudo para que a matéria dure mais. Isso cria também um problema, porque tudo é feito para que a matéria dure mais e se sabe muito bem que ela não vai durar.

É por isto que, em sua grande maioria, os melhores profissionais médicos não se encontram à cabeceira de seus pacientes quando eles estão agonizantes. Porque há neles uma “ferida narcísica”, na expressão de Freud. Quando Freud sofreu a perda de sua filha Sofia, disse:

“Não acuso ninguém, não posso me queixar a ninguém, mas sinto como uma ferida narcisista irreparável”. Como se a morte fosse o fracasso de todo um saber, que mostrasse os limites de nossa tecnologia. Esta forma de pensar vai ter conseqüências na forma de estar presente à cabeceira do doente terminal. Como se houvesse uma dupla linguagem: Eu faço tudo para que você melhore, mas sei que não há outra saída senão o fracasso e a morte. É algo que observar em alguns meios hospitalares.

~ JEAN-YVES LELOUP LEONARDO BOFF, TERAPEUTAS DO DESERTO – De Fílon de Alexandria e Francisco de Assis a Graf Durckheim

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