A filosofia ocidental busca negar ou rejeitar a doença. Segundo ela, a condição humana ideal é livre de doenças.
Essa é a base da medicina e do tratamento médico modernos.
Uma vez que o tratamento médico moderno prevalece há tanto tempo, a reação automática à descoberta da doença é buscar eliminá-la. A medicina moderna não consegue conceber uma abordagem que tente encontrar um meio de se viver com a própria doença, acolhendo-a, aceitando-a. A aurora da medicina ocidental moderna antecede de uns poucos anos a Revolução Francesa, com a fundação do Hospital, em Paris. Joveis médicos dedicados reuniam-se lá para praticar sua concepção ideal de medicina, baseada no espírito de liberdade, igualdade e fraternidade. Eles diagnosticavam e tratavam as pessoas comuns. Até aquela época, o tratamento médico fora, em grande parte, trabalho de médicos particulares que atendiam exclusivamente a clientes abastados, e esses jovens médicos lutaram para romper com essa tradição.
O lema dos médicos do Hospital era: “Olhe para a doença, não para o paciente”.
Com “olhar para a doença” eles se referiam a usar informações estatísticas de saúde pública para cientificamente analisar e classificar os sintomas. “Não olhar parar o paciente”queria dizer não dar atenção ao status ou classe social da pessoa, mas tratar de sua doença como se trataria de qualquer outro paciente na mesma condição.
Esses jovens médicos ardiam com a paixão de eliminar inteiramente a doença.
Mas, depois de dois séculos, a abordagem deles evoluiu para um modo de pensar representado pela velha piada: “A cirurcia foi um sucesso, mas o paciente morreu.” A medicina moderna concentra-se unicamente na doença e ignora a formação e a qualidade de vida do paciente. Ela vê uma pessoa como uma coisa que deve ser fuçada e cutucada até ser reduzida a um dado digital. Depende excessivamente dos medicamentos. Não tem qualquer consideração pela dignidade humana ou pelas emoções dos indivíduos.
(…)
Agora é o momento de repensarmos fundamentalmente nossas idéias sobre a saúde e doença.
Somos todos doentes. Todos os seres humanos estão doentes, e a saúde é uma ilusão. Todos os dias nossos dentes ficam mais fracos, nossa pele envelece e morrem mais de cem mil células cerebrais, que nunca serão substituídas. Todas as células de nosso corpo estão constantemente se desintegrando, morrendo e sendo substituídas por outras.
É impossível que um modelo de tratamento de saúde dogmático, estático e monolítico atenda às necessidades de um ser vivo dinâmico, em constante mutação.
Cada um de nós é completamente diferente.
Por esse motivo, a medicina deve nos tratar como os indivíduos que somos, levando em consideração aspectos como nossas crenças filosóficas, nossos constextos familiares e nossos problemas pessoais, e decidir, com base nessa totalidade, quando receitar um medicamento ou recomendar uma cirurgia. Nossos médicos não podem decidir nada por nós, mas podem nos ajudar a ver quais são as nossas opções e nos ajudar a decidir o que é melhor para nossas vidas.
O que é necessário agora é o conceito budista de viver com a doença.
~Hiroyuki Itsuki, Tariki – Aceitando o Desespero e Descobrindo a Paz.